segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014



Escuta no meu peito
O gosto e a friagem
Da garapa que adoça
A lâmina do facão
Abrindo-lhe a carne

Escuta no meu peito
O curso do sangue
Desidratando-se
Como tinta pela página

Escuta no meu peito
O silêncio trêmulo
Da minha voz
Gritando por ti sem desassossego

Escuta no meu peito
A escrita impossível
De tua voz
Repercutindo vazios

Escuta no meu peito
O alarido dos fantasmas
Do tempo
Assombrando-me de visões

Escuta no meu peito
O burburinho da palavra
Tomando posse de mim
Qual território inóspito

Escuta no meu peito
O canto das cidades
Os voos
Que nunca adejaram

Escuta no meu peito
O pio do pássaro
Na gaiola – asas em plumas
E o aleijão do voo

Escuta no peito
Todos os meus medos
Revelados às tuas mãos
Ao arrepio de tua nuca nua

Escuta no meu peito
Meus segredos
Murmurados à lua

Escuta no meu peito
O vulto dos amores
Que feneceram, enfim,
Como todas as flores

Escuta no meu peito
O vermelho tinto
Da buganvília
Extinta da rua

Escuta no meu peito
O fluxo da língua
Ávida de pele
Ávida de página

Escuta no meu peito
O curso do rio
Que nunca fluiu
Fora da língua

Escuta no meu peito
O teu nome
Que não paro
De silenciar.

(Nilo da Silva Lima)

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